Kalil de Oliveira
Tubarão
Seria apenas mais uma partida de futebol, hoje, às 22 horas, no concorrido ginásio de esportes da Unisul, em Tubarão, se não fosse um detalhe: cinco jogadores de um lado são estrangeiros refugiados. Um projeto, idealizado por alunos do curso de relações internacionais da universidade, promove a integração de, por enquanto, sete países como Gana, Senegau e Benin, a maioria do continente africano.
Ex-jogador profissional de futebol em Gana, Stephen Sepenu, 26 anos, é um dos convidados. Ele, que está há dois anos no Brasil, mora em uma casa alugada no bairro Dehon, em Tubarão, com outros cinco rapazes. Todos são muçulmanos e deixaram a África exclusivamente para trabalhar e manter suas famílias.
“Por enquanto quero permanecer aqui e logo viver com minha mulher em Tubarão. Converso com ela e minha filha todos os dias pelo WhatsApp. Tenho uma família muito bonita e muito grande”, responde o imigrante, arranhando o português, na companhia do novo amigo brasileiro, o estudante de relações internacionais, Gustavo Mendes, um dos organizadores do projeto e bolsista convidado pela coordenação do curso.
Segundo Mendes, existem 21 casos semelhantes ao de Stephen em Tubarão, em apenas seis meses de cadastro. Nos últimos dois anos, o estudante iniciou uma mobilização na universidade para ensinar português para os estrangeiros. Ele sonha, ao fim do curso, atuar em missões da Organizações das Nações Unidas (ONU), ou outros projetos relacionados ao tema. “A mobilidade neste grupo de pessoas é muito grande. Eles ficam pouco tempo em cada lugar. Tem vezes que estão aqui e logo vão para São Paulo e mais tarde voltam”, destaca.
Da aula ao cafezinho
Nas aulas ministradas todas as segundas e quartas-feiras, a partir das 19h30min, na Unisul, os idealizadores do projeto servem um lanche, patrocinado pelo sindicato dos professores da universidade. Para o curso, há quatro professoras voluntárias e o material é impresso do site de um programa da própria ONU, também com apoio externo. “Agora estamos buscando empresas para cobrir os custos da confecção de uniformes para as partidas de futebol e, quem sabe, confeccionarmos ainda camisetas para eles virem para as aulas se sentindo mais integrados”, observa o universitário.
Entre outras ações, o projeto de extensão promoveu ainda uma campanha de arrecadação de alimentos e roupas. Caixas espalhadas em empresas e na própria universidade resultaram em mais de 1,5 mil peças de roupa e 15 cestas básicas. Os próprios alunos do curso montaram os kits e o excedente foi doado para entidades beneficentes. “Eles são bastante conscientes e só pegam aquilo que necessitam”, elogia Mendes. Outras informações podem ser obtidas pelos telefones 9677-3442 e 3621-3343, na coordenação do curso.
Viagem ao Brasil requer sacrifícios
Com uma filha de apenas 3 anos para sustentar, Stephen Sepenu conta que precisou trabalhar mais de um ano para conseguir o dinheiro da viagem ao Brasil. Para piorar, o trabalho em seu país é muito instável. “Não tem serviço certo”, observa. Ele saiu de Gana com destino a São Paulo. Para a viagem de avião, contou com dicas de outros amigos que já atuavam no Brasil. De lá, veio de ônibus até Tubarão. Atualmente, trabalha no Farol Shopping em processo de efetivação. Ele destaca o apoio dos universitários, que auxiliaram na documentação. Com a formalização da solicitação de refúgio no país, ele recebeu um número de CPF do governo federal e um Registro Nacional de Estrangeiro (RNE).

